
Cena 1 – Confissão inicial
Esse certamente é um dos posts mais bizarros que escrevi neste espaço e, antes que algum engraçadinho de plantão pergunte se bebo ou uso drogas, afirmo categoricamente que não faço uso de nenhuma dessas opções.
Poder lidar com o desenvolvimento de caixas acústicas de alto rendimento é, sem dúvida, uma das coisas mais espetaculares que eu poderia fazer na vida. Tem horas em que sou um reclamão nato, seja pela falta de grana, pelo pouco tempo que sobra para essas brincadeiras ou pela incrível dificuldade imposta a quem gosta de alto-falantes e mora no Brasil.
Aqui tudo é complicado e alguns projetos, para ganharem sua forma definitiva, exigem verdadeiras aventuras no melhor estilo Indiana Jones. Não temos nem uma simples porca garra 3/16 em qualquer loja. Meu sábio, fantástico e saudoso pai diria que o bom da dificuldade é justamente dar o valor correto ao que há de bom.

Cena 2 – A matéria bruta
Quem vê uma caixa pronta e tocando dificilmente consegue ter noção do que isso representa, da loucura que é desenvolver um projeto considerando todas as variáveis, e são muitas.
Lidar com componentes complexos, muitas vezes extremamente delicados, onde um simples descuido pode levar um deles para a terra do “ímã colado”, um destino sem volta, é algo especialmente assustador quando falamos de vintages raros e colecionáveis.
O negócio é tenso. E então vem a parte braçal da brincadeira, a parte cativante e maravilhosa de transformar uma chapa grande e sem graça em pedaços desconexos que, de repente, em uma farra quase infantil, começam a ganhar forma.
Mas aos poucos aquilo deixa de ser madeira e passa a ter presença.

Cena 3 – O nascimento
Na verdade, aos meus olhos, aquilo ganha uma curiosa forma de vida, como um personagem marcante de uma grande obra literária.
Deixa de ser apenas partes e passa a ter identidade, algo nasce ali, brota, levanta e parece te olhar com a louca possibilidade de existir apenas para te agradar.
Piração total, mas também profundamente cativante, apaixonante e, na essência, mágico. Chega então a roupa de gala e o desafio de dar boa aparência, porque até no mundo das caixas o preconceito visual é real.

Cena 4 – A identidade
Mas apesar de toda essa forma, dessa presença já estabelecida, ainda falta algo fundamental. Existe corpo, existe estrutura, existe até certo encanto, mas ainda não existe identidade, não existe personalidade e muito menos alma.
É nesse ponto que tudo muda, porque chega o momento do crossover e, com ele, uma responsabilidade quase desconfortável. Aqui já não se trata mais de montar uma caixa, mas de decidir quem ela vai ser. Cada escolha tem peso, cada componente, cada valor, cada corte, cada ajuste interfere diretamente na forma como esse “ser” vai se expressar.
Mais agressivo ou mais suave, mais analítico ou mais emocional, mais contido ou completamente expansivo, nada aqui é neutro, tudo comunica. É nesse instante que os componentes deixam de ser intrusos e passam a se entender, a se aceitar e a trabalhar juntos como se sempre tivessem sido um só.
Pode ter corpo, pode ter órgãos, mas sem alma não há vida que se justifique, e quando essa sintonia acontece não estamos mais diante de um conjunto de partes, estamos diante de algo único.
Nasceu, finalmente, a caixa acústica.

Cena 5 – O domínio
Costumo dizer que no áudio sou um cara feliz por uma razão curiosa, meus projetos sempre me agradam e, de alguma forma, isso é um feito e tanto. Mas sou pragmático e talvez esse seja o meu maior medo, porque sob um olhar frio e estatístico, se todos deram certo, um dia inevitavelmente um dará errado, fato.
Chega então o dia da primeira audição na sala e toda a emoção fica resumida a uma única pergunta, será essa a primeira a dar errado? Aqui a tensão vai para o nível máximo.
Vem a primeira música e, ainda muito tenso, não escuto música, escuto sons, características e defeitos. Vem a segunda música e começa uma apresentação tímida, um reconhecimento curioso e desconfiado entre criador e criatura. Na terceira música ainda existe timidez, é preciso deixar a tensão passar, e então algo muda, percebo que há música tocando na sala.
Na quarta música o clima já é outro, esse novo personagem virou amigo, e como quem não quer nada começo a explorar, brinco com minhas percepções, analiso virtudes e defeitos.
Sim, agora sei que o que brota ali é música, e de forma completamente premeditada desligo tudo, fico um dia inteiro sem mexer, porque esse não é o momento de explorar o desconhecido, é o momento de aceitar, aceitar esse novo personagem para que no dia seguinte, já devidamente apresentados, possamos evoluir.
Se desligo com um sorriso no rosto, sei que começamos bem.
No segundo dia escolho o melhor gênero musical, brinco com posicionamento, tento extrair o máximo do que ela tem de bom e exagerar no que tem de pior, refaço medições, levanto novas curvas de resposta e impedância e, com isso em mãos, parto para os ajustes.
No terceiro dia pode entrar um L-pad no tweeter, um notch nos médios, ajuste fino de posicionamento na sala, a melhor eletrônica disponível, e então chega o momento.

Cena final – O sentido de tudo
O lucro de toda essa aventura?
Navegar por músicas e mais músicas, emoção pura, por ter feito algo tão suspeitamente deslumbrante, independente de valor, marca, dificuldade ou performance.
Missão cumprida. Missão realizada.
Que venha a próxima, pois a estrada é longa e ainda há muito que fazer e aprender.






