05-O armário, os alto-falantes e uma resposta que ninguém gosta de ouvir

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Introdução

Por conta da minha dedicação com caixas acústicas, incluindo este site e minhas postagens nos mais diversos lugares, acabo recebendo um número muito grande de e-mails. Tento, na medida do possível, responder a todos com o pouco que sei.

Mas existem alguns e-mails que, de certa forma, pertencem sempre ao mesmo grupo de perguntas e que invariavelmente chegam mudando apenas o autor. Se eu fosse resumir os mais comuns, seria algo mais ou menos assim:

  • “Arrumando o armário me deparei com alguns alto-falantes e gostaria de encaixá-los em algum projeto bem sucedido…”
  • “Você poderia me passar as medidas?”
  • “Desmontei o som do carro e fiquei com alguns alto-falantes…”
  • “Comprei alguns MIDs no eBay, são muito superiores aos nacionais e ainda me saíram mais baratos, você pode me ajudar a implementar no seu projeto?”
  • “Quero fazer as Sublimes ou as Baubos, mas gostaria de usar alguns alto-falantes que já tenho…”
  • “Não gosto de caixas com alto-falantes de 6”, quero usar de 8”, o que preciso saber?”
  • “Tenho uma bookshelf muito legal, mas quero transformá-la em torre.”
  • “Moro em outro estado, montei uma caixa e gostaria que você me ajudasse a fazer o crossover.”
  • “Tenho uma caixa vintage e queria fazer um upgrade.”
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Resposta simples

Por mais que eu tente ser político, não consigo imaginar outra resposta que não seja: “Infelizmente, não sei como poderia lhe ajudar.”

Essa resposta, que pode parecer simples demais à primeira vista, é apenas reflexo da complexidade envolvida no desenvolvimento de uma caixa acústica de alto desempenho. Existem inúmeros fatores que precisam ser considerados e muitos deles simplesmente não podem ser deduzidos ou adivinhados à distância.

Cada alto-falante possui um comportamento único e específico. Não existe forma responsável de fornecer um projeto sem conhecer todos os seus detalhes. Para começar, é fundamental ter acesso aos parâmetros Thiele/Small de cada componente, pois são eles que permitem prever como o alto-falante irá se comportar dentro de um determinado volume de gabinete ou em determinado tipo de carga acústica.

Além disso, é altamente recomendável ter acesso às curvas de resposta e de impedância de cada alto-falante. Esses dados são cruciais para tentar extrair o máximo desempenho possível do sistema e orientar diversas decisões importantes durante o projeto, como a escolha do tipo de gabinete — selado, bass reflex, linha de transmissão e outros —, o volume interno adequado, a posição dos componentes, o tipo de crossover utilizado, as frequências de corte aceitáveis, as eventuais atenuações e a implementação dos filtros passivos.

Em muitos casos, inclusive, torna-se fundamental ter acesso aos próprios componentes já instalados no gabinete para realizar medições reais e, a partir delas, desenvolver as soluções adequadas para o projeto. Em outras palavras, não é possível projetar um crossover sério apenas com base em fotografias, no modelo do alto-falante ou nas especificações resumidas contidas em um manual.

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Ponto de vista

Existe ainda um ponto que é, de certa forma, mais subjetivo, mas que considero extremamente importante. Para muitos — eu incluso — um ótimo projeto é muito mais importante do que simplesmente bons componentes. Um dos erros mais comuns consiste justamente em adquirir componentes caros ou “aclamados”, muitas vezes importados, imaginando que isso por si só garantirá um grande resultado.

Sem um projeto bem pensado e bem executado, esses componentes acabam frequentemente se transformando em verdadeiros micos nas mãos de seus donos, e muitas vezes a pessoa sequer consegue compreender por que o resultado final ficou tão distante das expectativas.

O que sempre costumo dizer é o seguinte: se você gosta da ideia de construir suas próprias caixas acústicas, não desanime. Pelo contrário. Mas antes de tudo procure devorar tudo o que puder sobre o tema, leia bastante, estude e tente compreender os princípios básicos envolvidos nesse tipo de projeto.

Um excelente ponto de partida é o livro The Loudspeaker Design Cookbook, que inclusive possui versões em português. Independentemente da literatura utilizada, procure também criar uma visão clara do que pretende fazer, quais são suas metas, quais custos está disposto a assumir e qual nível de complexidade realmente deseja enfrentar.

Nunca comece um projeto apenas porque “morre de vontade” de fazê-lo. A vontade é importante e muitas vezes é ela que nos move, mas sozinha costuma levar a resultados bastante frustrantes.

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A simplicidade

Sempre que possível, comece por algo simples. É natural sonhar com aquela grande caixa acústica de três vias, cheia de componentes e desafios, mas projetos complexos costumam amplificar também os problemas e as dificuldades.

Uma caixa de duas vias costuma ser um ponto de partida muito mais sensato, pois reduz bastante o número de variáveis envolvidas e torna mais fácil identificar e corrigir eventuais problemas. Quem sabe até mesmo um projeto simples com um único alto-falante full-range, que muitas vezes pode surpreender pelo resultado.

Outra possibilidade interessante é começar desenvolvendo um subwoofer. Mesmo sendo aparentemente mais simples, ele já apresenta desafios suficientes para ensinar muito sobre comportamento acústico, dimensionamento de gabinetes e interpretação de parâmetros. Além disso, no Brasil existem boas opções de alto-falantes para subwoofer em diversas faixas de preço, o que torna esse tipo de projeto um excelente primeiro passo.

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A marcenaria

Um aspecto que muitas pessoas acabam subestimando é a importância da marcenaria no resultado final. A construção do gabinete possui um peso enorme no desempenho da caixa acústica e merece tanta atenção quanto a escolha dos componentes.

Antes de iniciar qualquer construção, pense cuidadosamente no espaço de trabalho, nas ferramentas disponíveis, no tempo necessário e no nível de precisão que será exigido durante o processo. Jamais comece a fazer uma caixa sem que tudo já esteja meticulosamente planejado e resolvido na prancheta.

Também é importante lembrar que boa parte dessas construções envolve o uso de ferramentas de altíssima rotação. Um pequeno descuido pode resultar em um acidente sério. Portanto, todo cuidado e atenção são absolutamente fundamentais.

Sempre que possível, tente projetar algo específico para os componentes escolhidos. Essa é a forma mais segura de aumentar as chances de sucesso no desenvolvimento de uma caixa acústica. Caso isso não seja viável, uma alternativa muito mais segura é procurar projetos completos e já testados, seguir cada detalhe com rigor e respeitar as especificações originais de volume, dutos, componentes e crossover.

Talvez o custo final seja um pouco maior, mas ao meu ver é muito melhor gastar um pouco mais e alcançar um bom resultado do que gastar pouco e terminar profundamente decepcionado. E mesmo que o resultado não seja perfeito, a experiência adquirida certamente será valiosa para projetos futuros.

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O amigo

Certa vez construí um subwoofer utilizando um alto-falante nacional e um amigo comentou, meio surpreso:

“Caramba… imagina se fosse com um importado.”

Essa é uma das frases que considero mais infelizes no nosso meio. Primeiro pelo preconceito injustificado contra componentes nacionais e, segundo, porque se eu utilizasse outro alto-falante simplesmente estaria construindo outro subwoofer. Sendo outro projeto, não faria qualquer sentido compará-los diretamente.

Na minha opinião, o mais correto seria dizer que existem alto-falantes excelentes — nacionais ou importados — que, quando utilizados em projetos bem executados, podem oferecer resultados extraordinários.

Esse amigo, que além de divertido também é bastante teimoso, resolveu testar sua própria teoria. Pegou o tal alto-falante importado e decidiu instalá-lo exatamente no mesmo gabinete. O resultado foi um verdadeiro desastre, daqueles que acabam se tornando histórias engraçadas com o passar do tempo. Até hoje ele ainda precisa aturar as lembranças desse episódio.

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A resposta, enfim…

Resumindo, espero não decepcioná-lo, mas serei obrigado a terminar este texto repetindo a mesma frase que mencionei no início:

“Infelizmente, não sei como poderia lhe ajudar.”

Preciso acrescentar também que, apesar de gostar muito do que faço, desenvolvo tudo de forma artesanal e ainda tenho muito a aprender. Por isso, nem sempre tenho respostas para todas as perguntas que eventualmente surgem.

Mas se você for como o meu amigo e continuar insatisfeito com tudo o que foi dito aqui, então esqueça tudo isso, coloque o alto-falante em um gabinete bem montado, cruze todos os dedos e torça para que dê certo.

Se der certo, aproveite o embalo pois a maré está de sorte e jogue logo em tudo que for loteria, mas por favor, só não gaste o suado dinheiro do próximo alto-falante, que usará na caixa acústica dos sonhos… seguro morreu de velho.